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Dicas

Criança & Alimentação: o "desafio" de gostar de comida de verdade

Ensinar as crianças a gostar de comida de verdade, com muitas cores, texturas e sabores diferentes, é um dos maiores aprendizados que os pais podem transmitir aos seus filhotes. Ainda muito pequeninas, a partir dos dois aninhos, as crianças já começam a tomar consciência em relação ao que comem e começam também a perceber as suas preferências. E hoje, diante de tantas embalagens super coloridas e de um mundo super doce, gaseificado e sintético, com publicidade, mascotes, e produtos alimentícios que oferecem brindes e “diversão sem fim”, é um desafio fazer com que as crianças tomem gosto pela comida de verdade.

A competição pode parecer desleal, mas nessa idade os maiores influenciadores das crianças ainda são os pais. Com dedicação, calma e amor, fica fácil vencer essa batalha! E como comida e afeto é assunto frequente por aqui, resolvi trazer um conteúdo especial sobre alimentação infantil e o desafio que a comida às vezes se torna para os pais.

Convidei para essa conversa gostosa, duas pessoas que adoro e que são experts em fazer as crianças se encantarem com a comida: a Fabiana Figueiredo, a dona do Ateliê das Ideias e que dá aula de culinária para crianças; e a nutri Pat Smith, do site Mundo Ovo e que também dá aula de culinária no Ateliê das Ideias, mas para as mamães. Elas trazem para essa conversa algumas dicas e insights que podem ajudar a gente nessa missão de apresentar o maravilhoso mundo da comida de verdade para as crianças.

Como despertar nas crianças o gosto pela comida de verdade?

Pat Smith: Eu acho que a principal tarefa e não dar ouvidos ao que não for compatível com o que você quer oferecer ao eu filho. O seu filho não é um coitadinho porque não toma refrigerante ou achocolatado. Ofereça sempre comida fresca em casa e não tenha produtos que você não considera adequado para o consumo do seu filho na despensa. O que os olhos não veem, a barriga não pede. Meu filho nem sabe o que é biscoito recheado ou um achocolatado.

Fabiana Figueiredo: Esse é um desafio constante… Acredito que a grande questão nesse caso, é o lugar que a alimentação vem ocupando na vida das pessoas. Com o ritmo acelerado do dia a dia, o comer e especialmente o cozinhar viraram mais uma tarefa ou obrigacão, como escovar os dentes, tomar banho, fazer o deve. Penso que a melhor forma para se promover uma boa alimentação é através do conhecimento e da curiosidade.

Só podemos gostar do que conhecemos, portanto devemos incentivar os pais a levarem as crianças a feiras e hortifrutis, a mostrar as comidas para as crianças, apresentar mesmo (da mesma forma como se apresenta um brinquedo novo ou que se apresentam pessoas), falar sobre a forma, a textura, a cor, o gosto e sobre quantas coisas gostosas se pode fazer com aquele alimento. Outra dica legal também é envolver as crianças nas decisões sobre a alimentação da casa. Por exemplo perguntar à criança que legume ela quer comprar na feira para fazerem em casa (as crianças se comprometem com as suas escolhas e tende a ser mais fácil fazê-las experimentar o que elas mesmas escolheram).

Os hábitos familiares e os hábitos da própria criança influenciam muito esse momento. Se a criança foi acostumada a consumir produtos muito doces desde muito cedo a tendência é que ela rejeite alimentos menos doces e aí fica bem mais difícil convencê-la  que a comida de verdade (frutas, legumes, carnes e grãos) é saborosa e divertida.  As embalagens coloridas, os personagens são realmente muito tentadores mas se a crianca sabe que aquilo não é saudável e que é um produto que ela só pode consumir de vez em quando ela tende a respeitar isso (a não ser que os pais usem o alimento como moeda de troca e nesse caso o adulto é quem está dizendo que aquele é um produto que deve ser valorizado…).

O que pode e o que não pode na alimentação das crianças? Existe alimento proibido?

Fabiana Figueireido: Acredito que com moderação, depois de uma certa idade, as crianças podem consumir todos os alimentos. Quanto mais tarde ela for apresentada aos alimentos gordurosos e açucarados melhor, pois assim se cria um hábito e um paladar mais aberto as sabores das comidas de verdade e quando a criança é apresentada aos alimentos com essa característica ele mesma tende a estranhar o sabor. É muito importante que a casa onde a criança vive tenha hábitos saudáveis porque as crianças aprendem primeiro pelo exemplo. Não adianta a mãe querer convencer a criança a comer saladinha se ela mesma não come, se a criança não ve os pais comendo. Não existe mágica, é uma construção de hábitos.

Pat Smith: Existe uma listagem de alimentos que não devem ser oferecidos aos pequenos até os dois anos de idade. Alguns por motivo de saúde e o risco de desenvolver alergias, como oleaginosos e crustáceos e outros porque não oferecem nada de nutritivo aos pequenos e estariam desde muito cedo favorecendo o aparecimento de cáries e viciando do o paladar como os doces. Você pode encontrar a lista dos alimentos que não devem ser oferecidos nesse link aqui.

Como lidar com o “não quero” e “não gosto” das crianças na hora de comer?

Pat Smith: Até a criança que sempre comeu tudo quando bebê, vai passar pela fase do não querer comer alguma coisa. Pode ser a aversão aos verdes, a preguiça de mastigar a carne. Assim como nós, com o passar do tempo e o amadurecimento, elas já conseguem diferenciar o que gostam do que não gostam, desenvolveram preferências e aversões. Tenha paciência e ofereça sempre opções que forneçam nutrientes suficiente em cada refeição. Não quer brócolis, tente a couve, o espinafre…

Fabiana Figueiredo: Envolvendo as crianças em todo o processo que envolve a alimentacão. Chamando a criança para ajudar na cozinha (os muito pequenos podem ajudar a lavar os alimentos, os maiores já podem ajudar a mexer nas tigelas a quebrar ovos, a medida que eles crescem podem ir ganhando autonomia e fazendo mais coisas), colocando as crianças para comerem junto com os pais (comer é um ato social e as crianças muitas vezes comem sozinhas, por conta do horário, comem uma comida que elas não escolheram e muitas vezes o prato já chega prontos com uma ordem de comer tudo… Ora, se você não escolheu, não pode fazer o seu prato, e ainda tem que comer sozinha sendo pressionada para comer tudo, que prazer essa criança vai ter de comer?).

Outro ponto importante é entender que as crianças são pessoas que como os adultos tem variação no apetite e no paladar. Portanto, é normal que as crianças não comam exatamente a mesma quantidade de comida todos os dias, assim como é normal a recusa por algum alimento (hoje eu não quero cenoura!). É normal também que as crianças tenham algumas restrições e não gostem de alguns alimentos.

Minha dica é que o alimento deve ser oferecido a criança com todas as variedades de preparo e que o adulto nunca desista na primeira tentativa, mas que também preste atenção no que a criança realmente não gosta para não tentar forçar. Minha filha, que hoje tem 15 anos não comia inhame, comia na sopa quando era bebê, mas depois de uma certa idade passou a recusar. Eu respeitei mas sempre oferecia. Um dia aprendi a fazer chips de inhame, assado no forno. Ofereci e ela não deu muita bola até que me viu comendo e ouviu o barulhinho crocante. Imediatamente, ela pediu para provar e há muitos anos chips de inhame são um hit em casa! Mas se você oferecer um purê de inhame, ela detesta e recusa até hoje.

Qual o pior “erro” que os pais podem cometer no que diz respeito à alimentação dos filhos?

Fabiana Figueiredo: Acredito que existem dois erros que aparecem mais. O primeiro é a introdução precoce de alimentos industrializados e excessivamente processados. Para que dar refrigerante, balas, biscoitos e comida pronta para crianças pequenas? Dessa forma os pais estão oferecendo venenos que comprometem todo o desenvolvimento do paladar  e dos hábitos da criança. Outro erro muito comum, é o desespero diante das recusas das crianças. Por exemplo a criança hoje resolveu que não quer comer arroz e feijão, aí a mãe se desespera porque assim ele não vai ficar alimentado e as criancas enxergam esse desespero (mesmo que os pais não demostrem) e entendem rapidamente que a comida é uma via muito eficiente de manipulação. A criança recusa a comida, o adulto se desespera e começa a oferecer outras coisas para que a crianca não fique com fome, geralmente o que se oferece nesses casos é alguma coisa que o adulto tem certeza que a criança vai comer. Pronto! A criança entendeu e aprendeu que se ela recusar a comida vai ter uma guloseima e assim se estabelece um ciclo vicioso.

Pat Smith: As chantagens alimentares acho que são o pior erro. Usar a comida como moeda de troca, seja para a criança raspar o prato para ganhar um presente ou oferecer um doce caso cumpra uma tarefa. Desse jeito, se constrói precocemente uma relação nada saudável com a comida e o real papel dela em nossas vidas.

A partir de que idade a criança começa realmente a ter consciência daquilo que come? Falar com a criança que uma comida faz bem ou faz mal ajuda? Como fazer essa abordagem e a partir de que idade?

Pat Smith: Aos dois anos a criança começa a ter mais autonomia e a explorar de forma mais completa os alimentos. Acredito que conhecimento não ocupa espaço, portanto vale explicar sim que os alimentos fornecem energia para ela brincar, para crescer, ter dentes fortes, cabelos brilhosos e aos poucos dar à criança a noção do que ela precisa para ter saúde.

Fabiana Figueiredo: A partir dos 2 ou 3 anos a criança já começa a ter consciência dos saberes, cores e das suas preferências. O adulto deve sempre promover o contato com a comida de verdade sempre chamando a atenção para as coisas legais daquela comida. O caminho deve ser sempre o de valorizar o que é bom e saudável, mas não acho que devemos ficar martelando na cabeça das criancas que tem que comer isso porque é saudável e não comer aquilo porque não é saudável. A partir de uma certa idade (acredito que uns 7/8 anos), já podemos explicar o que aquela comida mega processada pode fazer no corpo dela,  e que por isso é uma comida para se comer só de vez em quando. Mas isso deve ser um hábito da família! Não adianta a casa toda se entupir de comida processada e tentar convencer a criança de comer comida de verdade.

Qual o principal problema da alimentação infantil hoje na sua opinião?

Pat Smith: A busca pela praticidade nos afastou da cozinha, das feiras livres. Abrimos caixas, pacotes, acreditamos na publicidade que invade nossas casas pela TV, internet e mídia impressa, acreditamos nas alegações de que tal produto é saudável sem buscar mais informações e aceitamos a damos guarida para que esses produtos morem em nossa casa.

Fabiana Figueiredo: O excesso de industrializados! Os pais trabalham muito, tem cada vez menos tempo para cozinhar, a industria oferece opções “fáceis” e disfarçadas de comida, as crianças se acostumam , viciam (isso mesmo comida processada é feita para viciar) o paladar e passam a recusar alimentos de verdade.  Os pais acham que ela vai morrer de fome e oferecem ainda mais coisas industrializadas porque assim pelo menos ela comeu…

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